quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Esportes

Capoeira no Rio Grande do Norte une esporte, história e cultura afro-brasileira

A capoeira no Rio Grande do Norte combina prática corporal, música, ancestralidade e educação. No estado, a manifestação se expandiu por escolas, universidades, projetos sociais e rodas comunitárias.

A capoeira no Rio Grande do Norte reúne características que ultrapassam a prática esportiva. Em uma mesma roda, movimentos de luta convivem com música, dança, oralidade, disciplina e memória. A manifestação também funciona como instrumento de educação, inclusão social e valorização da cultura afro-brasileira.

Presente em escolas, universidades, projetos comunitários e espaços culturais, a capoeira potiguar foi construída por mestres, professores e praticantes que ajudaram a ampliar o alcance da atividade no estado. O processo inclui a organização de grupos, a participação em eventos esportivos e a criação de iniciativas voltadas à formação de crianças, jovens e adultos.

Uma prática que combina diferentes linguagens

A capoeira não pode ser definida apenas como luta ou modalidade esportiva. Ela envolve um conjunto de conhecimentos transmitidos pela prática corporal e pela convivência entre os participantes. A ginga, os golpes, as esquivas e os deslocamentos fazem parte do jogo, mas não são os únicos elementos que explicam a manifestação.

A roda também é formada pelo toque do berimbau, pelo pandeiro, pelo atabaque, pelas palmas e pelos cantos. As músicas podem narrar episódios históricos, homenagear mestres, ensinar valores ou conduzir o ritmo do jogo. O conhecimento é transmitido, em grande parte, pela oralidade e pela observação, em um processo que aproxima diferentes gerações.

O Dossiê do Iphan sobre a capoeira destaca que a roda reúne movimentos, instrumentos, cantos, rituais e formas próprias de aprendizagem. Por isso, a manifestação é compreendida como patrimônio cultural imaterial, e não apenas como uma técnica de combate.

Herança da resistência negra

A formação histórica da capoeira está ligada à presença africana no Brasil e às experiências de resistência de populações negras submetidas à escravidão. Ao longo do tempo, diferentes práticas corporais, musicais e comunitárias contribuíram para a constituição da capoeira como uma expressão própria da sociedade brasileira.

Durante parte da história do país, a prática foi perseguida e associada à criminalidade. A repressão atingiu principalmente pessoas negras e pobres que praticavam capoeira em espaços públicos. A criminalização contribuiu para a construção de um estigma que permaneceu por décadas, mesmo quando a manifestação já desempenhava papel relevante na sociabilidade urbana.

A transformação da capoeira em atividade reconhecida socialmente ocorreu de maneira gradual. Mestres passaram a organizar escolas, sistematizar métodos de ensino e defender a prática como instrumento de formação física e cultural. Esse processo ajudou a ampliar a presença da capoeira em academias, instituições de ensino e projetos sociais.

O reconhecimento oficial também avançou. Em 2008, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registrou a Roda de Capoeira no Livro das Formas de Expressão e o Ofício dos Mestres de Capoeira no Livro dos Saberes. Em 2014, a Unesco reconheceu a Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

A trajetória da capoeira no Rio Grande do Norte

A história da capoeira no Rio Grande do Norte ainda é reconstruída por meio de relatos orais, documentos, acervos pessoais e pesquisas acadêmicas. Um plano de salvaguarda produzido no âmbito do Iphan registra que os primeiros relatos identificados no estado remontam ao início da década de 1960, período em que o lutador Touro Novo teria realizado apresentações e demonstrações em Natal.

Segundo o documento, a capoeira potiguar se consolidou principalmente nas décadas de 1970 e 1980. O período foi marcado pela atuação de mestres que organizaram escolas e estabeleceram vínculos com diferentes tradições da capoeira, incluindo referências associadas à Capoeira Angola e à Capoeira Regional.

O Plano de Salvaguarda da Capoeira no Rio Grande do Norte também registra iniciativas de mapeamento de pontos de prática em cerca de 50 municípios do estado. O levantamento incluiu ações de formação e oficinas em cidades como Natal, Mossoró, Pau dos Ferros e Caicó, indicando a presença da capoeira para além da capital.

Como ocorre em outras partes do país, a história potiguar não se resume a uma única escola ou linhagem. A expansão da prática foi resultado da atuação de grupos, associações, professores e mestres que participaram da formação de novos praticantes e da criação de projetos ligados à educação e ao esporte.

Dos espaços comunitários às escolas

Um dos caminhos de expansão da capoeira no Rio Grande do Norte foi a aproximação com o ambiente escolar. A atividade passou a ser utilizada em ações educativas que trabalham coordenação motora, disciplina, cooperação, musicalidade e conhecimento da história afro-brasileira.

Em 2021, mestres do estado apresentaram o projeto “Capoeira na Escola” a representantes da Secretaria de Esporte e Lazer do Rio Grande do Norte. A proposta previa a inclusão da capoeira como atividade cultural em escolas das áreas urbana e rural, em diálogo com a Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica.

A presença da capoeira na escola permite tratar o conteúdo de forma interdisciplinar. Além dos exercícios físicos, as aulas podem abordar a origem dos instrumentos, os significados dos cantos, a trajetória dos mestres e a contribuição da população negra para a formação do Brasil.

O cuidado central é evitar que a atividade seja apresentada de maneira descontextualizada. Quando a capoeira aparece apenas como uma sequência de golpes ou como entretenimento, parte importante de seu significado histórico e cultural é perdida. O ensino precisa reconhecer os mestres e as comunidades que preservam esse conhecimento.

A relação com o esporte e os Jogos Escolares

A dimensão esportiva é uma das formas pelas quais a capoeira se tornou mais conhecida. Treinos regulares, preparação física, apresentações e competições ajudaram a aproximar a prática de políticas públicas de esporte e lazer. Essa inserção, porém, não elimina as características culturais da manifestação.

Pesquisa publicada na revista Conexões, da Universidade Estadual de Campinas, analisou recortes da história da capoeira nos Jogos Escolares do Rio Grande do Norte. O estudo utilizou entrevistas e documentos para compreender como a prática foi incorporada aos espaços estudantis. Os autores apontam que os Jogos Escolares Brasileiros contribuíram para disseminar a capoeira como esporte de competição e influenciaram sua introdução nos jogos do estado.

Esse processo ampliou a visibilidade da capoeira, mas também produziu debates sobre os limites de sua esportivização. A competição pode valorizar aspectos como técnica, preparo físico e desempenho. A roda tradicional, por outro lado, envolve ritmo, diálogo corporal, improviso, canto, respeito aos mais velhos e participação coletiva.

As duas dimensões podem coexistir, desde que a prática esportiva não apague a origem e os fundamentos culturais da capoeira. No Rio Grande do Norte, essa combinação aparece em projetos que associam treinos, apresentações, oficinas, pesquisa e ações educativas.

Universidade e formação de novos praticantes

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte mantém iniciativas de ensino, pesquisa e extensão relacionadas à capoeira. Projetos cadastrados na instituição descrevem a atividade como cultura corporal de movimento e manifestação artística da cultura popular brasileira.

Entre as ações registradas estão aulas regulares, treinamentos, eventos, apresentações e atividades voltadas à formação continuada. Algumas propostas também trabalham manifestações relacionadas, como puxada de rede, samba de roda e maculelê.

Em outro projeto, a UFRN estabeleceu como objetivo promover o desenvolvimento humano dos praticantes e ampliar o alcance da capoeira no território potiguar. A iniciativa prevê atividades para pessoas a partir de 7 anos e utiliza a prática como meio de inclusão, convivência e valorização da cultura afro-brasileira.

A universidade também pode contribuir para a preservação de materiais, relatos e memórias que muitas vezes permanecem restritos aos acervos pessoais dos mestres. A aproximação entre conhecimento acadêmico e saber tradicional ajuda a documentar trajetórias sem substituir a autoridade das comunidades que mantêm a prática viva.

O papel dos mestres na preservação da tradição

O mestre ocupa uma posição central na capoeira. Seu trabalho não se limita à transmissão de movimentos. Ele ensina códigos de convivência, conduz a roda, orienta os iniciantes, preserva cantos e histórias e ajuda a interpretar os diferentes momentos do jogo.

O reconhecimento de um mestre é construído pela experiência, pela dedicação e pela confiança da comunidade. Em geral, a formação ocorre ao longo de muitos anos, por meio da prática, da convivência com outros capoeiristas e da transmissão oral de conhecimentos.

No Rio Grande do Norte, mestres e professores também atuam em projetos sociais, escolas e instituições públicas. A trajetória de Mestre Marcos, por exemplo, está associada à introdução da capoeira em espaços educacionais e à participação em ações ligadas aos Jogos Escolares. Registros do portal Mais Cultura RN apontam que sua atuação começou na década de 1960 e passou por escolas, projetos comunitários e atividades de formação.

Valorizar esses profissionais significa reconhecer que a preservação da capoeira depende de pessoas que mantêm a prática em funcionamento. Também envolve garantir condições para que mestres e mestras possam ensinar, pesquisar, organizar rodas e transmitir seus conhecimentos às novas gerações.

Capoeira, inclusão e identidade cultural

Por reunir movimento, música e convivência, a capoeira pode ser utilizada em ações voltadas à inclusão social. Projetos desenvolvidos em escolas, bairros e universidades trabalham autoestima, respeito, cooperação e pertencimento. A participação na roda também favorece o contato entre pessoas de diferentes idades e experiências.

O potencial inclusivo, no entanto, depende da forma como cada projeto é organizado. É necessário considerar as condições de segurança, a preparação dos responsáveis, o acesso de pessoas com deficiência e o respeito às diferentes trajetórias dos participantes.

Há iniciativas no estado que procuram adaptar a prática para pessoas com deficiência e ampliar o acesso a diferentes públicos. Essas ações reforçam que a capoeira pode ser praticada de maneiras variadas, sem perder sua identidade cultural.

Mais do que oferecer uma atividade física, a capoeira cria uma oportunidade de contato com a história da população negra no Brasil. Ao aprender um toque, acompanhar um canto ou ouvir a trajetória de um mestre, o praticante também entra em contato com formas de memória que foram preservadas fora dos registros oficiais.

Preservar sem congelar a capoeira

Como patrimônio cultural imaterial, a capoeira não é uma prática estática. Ela se transforma conforme circula por escolas, universidades, projetos sociais, eventos esportivos e comunidades. Novos grupos surgem, diferentes estilos dialogam e os instrumentos, cantos e métodos de ensino continuam sendo transmitidos.

A preservação, portanto, não significa impedir mudanças. O desafio é garantir que as transformações ocorram sem romper com a história, a ancestralidade e os conhecimentos que sustentam a manifestação. Isso exige participação dos mestres, dos praticantes, das instituições culturais e do poder público.

No Rio Grande do Norte, a capoeira permanece como expressão de uma cultura viva. Ela é esporte quando exige preparo, técnica e disciplina; é arte quando utiliza música, ritmo e movimento; é educação quando transmite conhecimentos; e é história quando preserva a memória da resistência negra e da formação cultural brasileira.