quarta-feira, 4 de novembro de 2026
CIDADES

Parelhas: tradições, arqueologia e natureza no coração do Seridó potiguar

Parelhas, no Seridó do Rio Grande do Norte, combina patrimônio arqueológico, paisagens da caatinga e tradições populares. Entre os destaques estão o Sítio Arqueológico Mirador, a Barragem Boqueirão, a Serra da Capelinha e a Dança do Espontão.

Em meio ao semiárido do Rio Grande do Norte, Parelhas reúne diferentes camadas da história do Seridó. O município combina vestígios de ocupações humanas antigas, serras de formação rochosa, paisagens de caatinga, manifestações religiosas e uma culinária associada à vida no entorno da Barragem Boqueirão.

Localizada na região do Seridó Oriental e próxima à divisa com a Paraíba, a cidade integra o território do Geoparque Seridó, reconhecido pela importância de seus elementos geológicos, arqueológicos, culturais e ambientais. Em Parelhas, essa combinação aparece de forma particularmente evidente no Sítio Arqueológico Mirador, nas áreas serranas e nas tradições mantidas por comunidades e grupos culturais.

Uma história ligada ao rio Seridó e às rotas do sertão

A formação de Parelhas está relacionada à ocupação das margens do rio Seridó, à criação de gado e às rotas usadas por agricultores, boiadeiros e comerciantes. Segundo registros históricos reunidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a área recebeu antigos povoadores a partir do século 18.

O nome do município é associado às corridas de cavalos realizadas na região. Os animais competiam lado a lado, em “parelhas”, em um caminho ligado à antiga Fazenda Boqueirão. A tradição equestre teria contribuído para a identificação do povoado, que se desenvolveu nas proximidades de uma capela dedicada a São Sebastião.

Parelhas foi elevada à categoria de vila em 26 de novembro de 1920. A emancipação municipal ocorreu pela Lei Estadual nº 630, de 8 de novembro de 1926, quando o território foi desmembrado de Jardim do Seridó. A cidade foi instalada em 1º de janeiro de 1927 e elevada à condição de cidade no ano seguinte. (ibge.gov.br)

A devoção a São Sebastião continua presente na identidade local. A festa do padroeiro está entre os principais momentos do calendário religioso e cultural do município, reunindo celebrações litúrgicas, apresentações musicais, encontros comunitários e manifestações populares.

O Sítio Arqueológico Mirador

O principal destaque arqueológico de Parelhas é o Sítio Mirador, localizado nas proximidades da Barragem Boqueirão. O local integra o Geoparque Seridó e apresenta pinturas rupestres em diferentes tonalidades, incluindo vermelho, amarelo e branco.

As figuras registradas nas rochas representam seres humanos e animais, como cervídeos, felinos e aves. A classificação indicada para o conjunto é a Tradição Nordeste, com elementos associados à subtradição Seridó, denominações utilizadas pela arqueologia para organizar características recorrentes de pinturas e gravuras rupestres encontradas em determinadas áreas.

Pesquisas realizadas na região também identificaram vestígios de ocupações antigas, entre eles restos de carvão, ossos de roedores, contas produzidas com ossos e conchas e uma área de sepultamentos infantis. A datação de carvão associado aos enterramentos foi estimada em mais de 9 mil anos antes do presente, segundo informações reunidas em documentos de inventário turístico e registros de pesquisa.

O abrigo rochoso conhecido como Pedra do Sorriso é outro elemento marcante da paisagem. A formação resulta da ação prolongada do intemperismo sobre a rocha e, além do valor geológico, está associada aos registros arqueológicos encontrados na área. O sítio é reconhecido como patrimônio arqueológico e aparece cadastrado nos registros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). (visiteparelhas.parelhas.rn.gov.br)

A visita a ambientes arqueológicos exige cuidados específicos. Pinturas, gravuras, sedimentos e outros vestígios não devem ser tocados, molhados, cobertos ou modificados. A retirada de fragmentos e a circulação fora das áreas indicadas podem comprometer informações que ainda são objeto de estudo científico.

Geologia e paisagens da caatinga

A paisagem de Parelhas é marcada pelo contraste entre as áreas mais elevadas do Planalto da Borborema e os terrenos da Depressão Sertaneja. O relevo, associado ao clima semiárido, produz cenários de serras, lajedos, vales e formações rochosas que ajudam a explicar a ocupação humana e o uso tradicional do território.

A vegetação predominante é a caatinga, adaptada a períodos de estiagem e à irregularidade das chuvas. Entre as espécies descritas para a área estão aroeira, braúna, imburana, pereiro, catingueira, jurema, xique-xique, macambira e palma. A diversidade da flora pode variar conforme o relevo, o tipo de solo e a disponibilidade de água.

O município está inserido na Bacia Hidrográfica Piranhas-Açu, que inclui o rio Seridó. A Barragem Boqueirão, também conhecida como Açude Público Ministro João Alves, ocupa posição importante na paisagem, na economia e no lazer local. O reservatório está próximo da área urbana e se tornou um dos pontos mais conhecidos de Parelhas.

No entorno do açude, há restaurantes e espaços voltados à convivência, especialmente nos períodos de maior movimento. O chamado peixe do Boqueirão é uma das referências da culinária local e costuma ser servido com acompanhamentos como arroz de leite, feijão macassar e saladas. A preparação está ligada à relação da comunidade com o reservatório e com os hábitos alimentares do sertão. (visiteparelhas.parelhas.rn.gov.br)

Serras, fé e turismo de natureza

Entre os pontos de interesse natural está a Serra da Capelinha. O relevo do local é associado ao Planalto da Borborema e, na percepção popular, lembra a silhueta de uma mulher. Essa imagem alimentou a narrativa da “princesa adormecida”, uma representação presente no imaginário regional.

A serra também ganhou importância como espaço de turismo religioso e paisagístico. O local foi tombado por legislação municipal, segundo informações do inventário turístico de Parelhas. A visita combina observação da paisagem, contato com a formação rochosa e referências à religiosidade popular.

A Serra do Boqueirão e outras áreas serranas do município complementam o conjunto de atrativos ligados ao ecoturismo e à geologia. As atividades, porém, dependem das condições climáticas, da sinalização, do acompanhamento adequado e do respeito às regras de conservação. Em áreas de caatinga, o calor, a baixa oferta de sombra e a irregularidade do terreno exigem planejamento.

O Geoparque Seridó amplia a leitura sobre esses lugares ao relacionar geologia, arqueologia, biodiversidade e cultura. A proposta não se limita à visitação de paisagens: também envolve educação patrimonial, valorização das comunidades e proteção dos elementos naturais e históricos. Parelhas é um dos municípios inseridos nesse território reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). (unesco.org)

Tradições que atravessam gerações

A cultura de Parelhas reúne práticas religiosas, música, dança, culinária e festas populares. Uma das manifestações mais conhecidas é a Dança do Espontão, associada à Comunidade Quilombola Boa Vista dos Negros e à devoção a Nossa Senhora do Rosário.

A apresentação tem origem afro-brasileira e é marcada pelo uso de espontões, elementos que integram a coreografia e a simbologia do grupo. Embora a tradição da dança tenha sido historicamente associada à participação masculina, a presença das mulheres também é registrada nas manifestações contemporâneas.

As festas religiosas ocupam espaço central no calendário local, mas não são as únicas expressões culturais. Quadrilhas juninas, bandas, filarmônicas e grupos musicais participam de celebrações comunitárias, eventos escolares, festas populares e datas comemorativas.

As corridas de cavalos, que ajudaram a construir a memória associada ao nome de Parelhas, também fazem parte do repertório histórico do município. O costume perdeu espaço para outras práticas esportivas ao longo do século 20, mas continua lembrado como parte da origem simbólica da cidade.

A culinária completa esse conjunto de referências. Além do peixe do Boqueirão, o repertório alimentar do Seridó inclui preparações baseadas em arroz, feijão, carnes, leite, queijos, raízes e produtos adaptados à disponibilidade do semiárido. Em Parelhas, os pratos e modos de preparo funcionam como formas de preservar relações com o território.

Preservação é parte da experiência

O patrimônio de Parelhas depende da conservação de áreas naturais, sítios arqueológicos, edificações, manifestações culturais e modos de vida. No caso dos sítios arqueológicos, a legislação brasileira determina que descobertas de bens dessa natureza sejam comunicadas ao Iphan. A retirada ou alteração de materiais pode causar danos irreversíveis à pesquisa e à memória coletiva.

A visitação responsável também envolve seguir orientações locais, evitar lixo, não abrir trilhas improvisadas, respeitar propriedades e comunidades e não registrar inscrições rupestres com contato físico. Em áreas de serra e caatinga, é recomendável levar água, usar proteção contra o sol e verificar previamente as condições de acesso.

Mais do que um destino de paisagens, Parelhas apresenta uma narrativa sobre a permanência humana no semiárido. As pinturas do Mirador remetem a grupos que viveram na região há milhares de anos; o rio Seridó e o Boqueirão explicam parte da ocupação recente; e as festas, danças, músicas e receitas revelam como a população continua reinterpretando sua própria história.

É essa combinação que dá singularidade ao município. Em Parelhas, arqueologia, natureza e tradição não aparecem como atrações isoladas, mas como partes de uma mesma paisagem cultural do Seridó potiguar.