A sanfona continua sendo um dos principais símbolos das festas populares do Rio Grande do Norte. O instrumento está presente em arraiais, festas juninas, apresentações de quadrilhas, celebrações religiosas e encontros comunitários que mantêm o forró como parte da identidade cultural potiguar.
Mesmo com a presença de bandas ampliadas, equipamentos eletrônicos e diferentes estilos musicais nos grandes eventos, a sanfona permanece associada à imagem mais tradicional das festas nordestinas. Ao lado da zabumba e do triângulo, ela forma a base do trio de forró, conjunto reconhecido por acompanhar bailes, festejos e manifestações populares em diferentes regiões do país. (gov.br)
No Rio Grande do Norte, essa permanência pode ser observada tanto em municípios do interior quanto em programações realizadas em cidades maiores. Em festas como o São João do Assú, no Roçado de São Pedro, em Macau, e em festivais de quadrilhas juninas, a sanfona continua ligada à dança, à devoção e às celebrações comunitárias.
Um instrumento associado à memória nordestina
A força simbólica da sanfona não depende apenas de sua sonoridade. O instrumento também carrega referências de um modo de vida associado às comunidades rurais, às feiras, às festas de padroeiro e aos encontros realizados em torno da música e da dança.
O timbre da sanfona costuma ser imediatamente relacionado ao forró tradicional, ao baião, ao xote, ao xaxado e ao arrasta-pé. Esses ritmos ajudaram a formar uma linguagem musical reconhecida em todo o Nordeste e projetada para outras regiões brasileiras por artistas como Luiz Gonzaga, cuja obra contribuiu para popularizar a formação composta por sanfona, zabumba e triângulo.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece as Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. A instituição destaca que o forró tem origem em festas e manifestações da cultura popular nordestina, especialmente nos festejos dedicados a Santo Antônio, São João e São Pedro. (gov.br)
Essa relação ajuda a explicar por que a sanfona permanece tão presente no calendário cultural potiguar. Quando o instrumento aparece em uma apresentação, ele não representa apenas uma escolha musical. Também remete a uma tradição construída por músicos, dançarinos, organizadores de festas e comunidades que passaram a reconhecer aquele som como parte de sua própria história.
Presença nas festas juninas
As festas juninas são o principal espaço de visibilidade da sanfona no Rio Grande do Norte. Durante o período dedicado a Santo Antônio, São João e São Pedro, o instrumento aparece em apresentações de forró, concursos de quadrilhas, cortejos, festas de rua e celebrações realizadas em áreas urbanas e rurais.
Em Bom Jesus, por exemplo, a programação junina anunciada para 2026 apresenta a sanfona, o triângulo e a zabumba como elementos associados à identidade da festa. O município também mantém festivais de quadrilhas nas categorias tradicional e estilizada, reunindo diferentes formas de representação da cultura junina. (site.bomjesus.rn.gov.br)
Em Touros, o regulamento de um festival de quadrilhas juninas previsto para julho de 2026 mostra como as competições continuam integradas ao calendário cultural do Estado. Embora esses eventos tenham formatos e repertórios variados, a música de base nordestina permanece relacionada ao ambiente das quadrilhas e dos arraiás. (touros.rn.gov.br)
A sanfona também aparece em festas que combinam tradição religiosa, entretenimento e atividades econômicas. Em Assú, o São João reúne apresentações musicais, quadrilhas e ações voltadas ao comércio local. A festa é apresentada pelo município como uma celebração ligada à identidade da cidade e à devoção a São João Batista. (assu.rn.gov.br)
Entre o forró tradicional e os grandes palcos
A presença da sanfona não significa que as festas populares tenham permanecido iguais. Ao longo do tempo, os eventos passaram a incorporar bandas maiores, repertórios variados, estruturas de palco e atrações de alcance nacional. O forró eletrônico, o piseiro, o sertanejo e outros estilos também ocupam espaço nas programações.
Essa mudança alterou a forma de apresentação da música, mas não eliminou a associação entre a sanfona e a festa nordestina. Em muitos eventos, o instrumento aparece em shows de artistas ligados ao forró tradicional ou é incorporado a arranjos modernos. Assim, a sanfona continua reconhecida como uma referência sonora, ainda que dividindo o palco com teclados, guitarras, metais e recursos eletrônicos.
O próprio conceito de forró reúne diferentes ritmos, formações e práticas musicais. Segundo o Iphan, o chamado forró tradicional inclui expressões como baião, xote, xaxado, arrasta-pé, rojão e coco. A diversidade não impede que a sanfona funcione como um dos principais elementos de identificação desse universo musical. (gov.br)
Nas cidades potiguares, essa convivência entre tradição e renovação pode ser vista em festas que reservam espaço para artistas locais, grupos de quadrilha, bandas regionais e atrações populares de maior projeção. O resultado é uma programação diversa, mas ainda marcada por símbolos reconhecidos pelo público, entre eles a sanfona.
Artistas e iniciativas de preservação
A permanência do instrumento também depende do trabalho de sanfoneiros, professores, produtores culturais e instituições que divulgam a música regional. Em 2016, a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte lançou o programa “Sanfonas Nordestinas”, criado para apresentar histórias e entrevistas com músicos e reforçar a importância da sanfona e do forró pé de serra.
O projeto da Uern TV destacava a necessidade de preservar referências da musicalidade nordestina e de mostrar que o forró tradicional continuava vivo. A iniciativa também registrava a atuação de sanfoneiros do Estado e a importância de criar espaços para que esses artistas apresentassem seu trabalho. (portal.uern.br)
Outra iniciativa ocorreu em São José de Mipibu, onde foi realizado um festival de sanfona em 2022. O evento reuniu músicos e público em uma programação voltada especificamente ao instrumento, demonstrando que a sanfona pode ser celebrada não apenas como parte de grandes festas, mas também como atração principal de atividades culturais. (saojosedemipibu.rn.gov.br)
Registros e iniciativas desse tipo ajudam a preservar repertórios, técnicas e histórias que muitas vezes são transmitidos de forma oral. Em várias comunidades, o aprendizado do instrumento ocorre dentro da própria família ou por meio da convivência com músicos mais experientes. Essa transmissão contribui para manter a sanfona presente entre as novas gerações.
Impacto cultural e econômico
Além de seu valor simbólico, a sanfona participa de uma cadeia cultural que envolve músicos, grupos de dança, produtores, técnicos, fabricantes, professores e trabalhadores ligados à realização de eventos. As festas populares movimentam serviços e ampliam a circulação de artistas, especialmente durante os meses de junho e julho.
Um levantamento sobre manifestações culturais do Rio Grande do Norte registra a presença de sanfoneiros entre os grupos e artistas relacionados à cultura popular de diferentes municípios. O documento também aponta a importância dos festejos juninos e religiosos no calendário de várias cidades do Estado. (governocidadao.rn.gov.br)
Em festas como o Roçado de São Pedro, em Macau, a programação musical inclui atrações identificadas com a sanfona e o forró. A prefeitura apresenta o evento como uma oportunidade de valorizar a cultura, fortalecer a identidade local e celebrar a fé da população. (macau.rn.gov.br)
Esse vínculo entre cultura e economia não reduz a importância simbólica da sanfona. Ao contrário, mostra como uma tradição musical pode continuar relevante em diferentes dimensões da vida social: na dança, na religiosidade, no entretenimento, na formação de artistas e na movimentação das cidades durante os períodos festivos.
Tradição que se adapta
A sanfona permanece como símbolo das festas populares do Rio Grande do Norte porque conseguiu se adaptar sem perder sua identificação com o forró e com a cultura nordestina. Ela pode estar em uma roda de músicos, em um palco de festa junina, em um concurso de quadrilhas ou em uma apresentação realizada em uma comunidade rural.
Sua presença atravessa diferentes gerações e formatos de evento. Para o público mais velho, o instrumento pode lembrar festas antigas, bailes e celebrações familiares. Para os mais jovens, aparece em repertórios atualizados, apresentações de artistas populares e eventos que combinam elementos tradicionais com novas linguagens musicais.
No Estado, a continuidade dessa tradição depende da valorização dos músicos, do acesso à formação artística, do registro das manifestações culturais e da manutenção de espaços para o forró tradicional. Também depende do reconhecimento de que as festas populares não são apenas momentos de lazer, mas formas de preservar memórias e fortalecer vínculos comunitários.
Enquanto houver quadrilhas, arraiás, festas de padroeiro e encontros dedicados ao forró, a sanfona seguirá ocupando lugar de destaque no imaginário potiguar. Seu som continua funcionando como uma ponte entre passado e presente, mantendo viva uma das expressões mais reconhecidas da cultura popular do Rio Grande do Norte.





