quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Serviços

Literatura de cordel mantém viva a tradição popular do Rio Grande do Norte

A literatura de cordel segue como uma das principais expressões da cultura popular do Rio Grande do Norte. No estado, poetas, escolas, universidades e instituições culturais mantêm viva uma tradição que combina oralidade, escrita, música, humor, crítica social e memória.

A literatura de cordel no Rio Grande do Norte continua a ocupar espaço na memória e na identidade cultural potiguar. Em folhetos, livros, apresentações, projetos escolares e iniciativas comunitárias, os versos rimados registram histórias, costumes, personagens e conflitos que fazem parte da vida nordestina.

Mais do que uma forma de poesia, o cordel reúne escrita, oralidade, música, ilustração e performance. A tradição atravessa gerações porque consegue falar de temas antigos e atuais com linguagem acessível, ritmo marcado e forte ligação com o cotidiano. No Rio Grande do Norte, essa produção aparece tanto em narrativas sobre o sertão e a religiosidade quanto em textos sobre política, educação, meio ambiente, festas populares e acontecimentos locais.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu a literatura de cordel como Patrimônio Cultural do Brasil em 19 de setembro de 2018. O registro foi feito no Livro das Formas de Expressão, após pesquisas documentais e de campo coordenadas pelo órgão federal. A medida reforçou a importância da preservação dos saberes, das técnicas e dos modos de transmissão associados ao cordel.

Uma tradição formada entre a escrita e a oralidade

A literatura de cordel brasileira tem relação histórica com antigos livretos populares europeus, especialmente aqueles que circulavam em feiras e eram expostos em cordões. No Nordeste, a prática ganhou características próprias e passou a dialogar intensamente com a cantoria, o repente, a embolada e outras formas de poesia oral.

Os folhetos tradicionalmente são pequenos, impressos em papel simples e organizados em versos. As narrativas podem assumir diferentes formatos, como sextilhas, setilhas e décimas, seguindo regras de métrica, rima e organização das estrofes. Essa estrutura ajuda a criar musicalidade e facilita a memorização, característica importante em uma tradição que se desenvolveu em ambientes onde a leitura muitas vezes era compartilhada em voz alta.

O cordel também se tornou conhecido pelas capas ilustradas, muitas vezes produzidas com xilogravura. A técnica utiliza uma matriz de madeira para imprimir imagens no papel e contribui para a identidade visual dos folhetos. A relação entre texto e imagem permite que a história seja apresentada de maneira direta, reforçando personagens, paisagens e acontecimentos descritos pelo poeta.

O cordel como registro da vida potiguar

No Rio Grande do Norte, a literatura de cordel acompanha aspectos da vida social e cultural do estado. As narrativas podem abordar experiências do campo, migrações, secas, festas religiosas, disputas políticas, lendas, acontecimentos históricos e figuras populares. Ao transformar esses temas em versos, os autores constroem uma forma própria de interpretar e transmitir a realidade.

Essa produção também funciona como registro de memórias que nem sempre aparecem em documentos oficiais. Histórias de comunidades, personagens anônimos e acontecimentos conhecidos localmente ganham circulação por meio dos folhetos e das declamações. O cordelista atua, nesse sentido, como narrador e observador do seu tempo.

A linguagem costuma combinar humor, crítica e imaginação. Uma mesma obra pode apresentar uma aventura, fazer comentário social e preservar expressões regionais. O resultado é uma literatura que se comunica com leitores de diferentes idades e níveis de formação, sem abandonar a elaboração poética.

O Iphan destaca que o cordel reúne tradições orais e escritas e mantém vínculos com diferentes matrizes culturais presentes na formação brasileira. O órgão também reconhece que a manifestação se transformou ao longo do tempo, sem perder elementos centrais de sua identidade.

Poetas potiguares e a renovação da linguagem

A permanência do cordel depende da atuação de poetas que escrevem, publicam, declamam e ensinam. Entre os nomes de destaque do Rio Grande do Norte está Antônio Francisco, de Mossoró, cuja produção reúne poesia, memória, crítica social e referências ao cotidiano nordestino.

O poeta também é associado a ações de incentivo à leitura e à aproximação entre literatura e escola. Em atividades educacionais realizadas no estado, sua obra foi apresentada a estudantes como forma de ampliar o contato com a poesia popular e com palavras ligadas ao universo sertanejo.

Em Mossoró, a presença do cordel ganhou espaço institucional em iniciativas culturais que homenageiam Antônio Francisco e promovem festivais, exposições, apresentações e atividades voltadas para crianças e adolescentes. A legislação municipal que criou o Polo Poeta Antônio Francisco prevê ações relacionadas à cultura popular, ao cordel, ao repente e à formação de novos leitores.

O movimento de renovação, no entanto, não se limita a um único autor. O estado reúne outros cordelistas, professores, ilustradores e grupos dedicados à produção e à divulgação da poesia popular. Em Parnamirim, por exemplo, projetos culturais e educacionais vêm utilizando o cordel em atividades de leitura, música e escrita.

Também há autores que incorporam assuntos contemporâneos aos versos, como inclusão, preservação ambiental, tecnologia, direitos sociais e desafios da educação. Essa atualização contribui para evitar que o cordel seja visto apenas como uma manifestação ligada ao passado.

Escolas ajudam a manter a tradição

A escola é um dos principais espaços de continuidade da literatura de cordel. A estrutura de rimas e estrofes pode ser utilizada em atividades de leitura, interpretação de texto, produção escrita, história, geografia, artes e educação ambiental.

Ao produzir um cordel, o estudante precisa organizar ideias, escolher palavras, observar a sonoridade e construir uma sequência narrativa. O exercício estimula a criatividade e aproxima a aprendizagem da realidade cultural dos alunos. A declamação também desenvolve oralidade, ritmo e capacidade de apresentação.

Em diferentes municípios potiguares, escolas promovem cafés com cordel, encontros com poetas, cordeltecas e projetos de publicação. Essas ações permitem que os alunos conheçam obras, conversem com autores e compreendam que a literatura popular é uma forma legítima de produção artística e de conhecimento.

O contato com a xilogravura amplia essa experiência. A imagem produzida para a capa ou para as páginas do folheto pode ser trabalhada como linguagem artística, permitindo que os estudantes relacionem texto, desenho, memória e identidade local.

Instituições e coletivos atuam na preservação

A preservação da literatura de cordel depende de uma rede formada por poetas, leitores, escolas, universidades, bibliotecas, centros culturais e órgãos públicos. No Rio Grande do Norte, o Iphan identificou coletivos e instituições envolvidos com a manifestação durante ações de diagnóstico e articulação.

Entre os grupos citados pelo órgão estão a Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel, a Associação Cultural Casa do Cordel e a Estação do Cordel, com atuação em Natal. A iniciativa também reuniu representantes de instituições como Sesc, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Fundação Cultural Capitania das Artes e Fundação José Augusto.

Essas organizações contribuem para a circulação de folhetos, a realização de encontros, a formação de novos autores e a preservação de acervos. Também ajudam a estabelecer conexões entre a produção tradicional e os novos meios de divulgação.

O registro nacional de 2018 não transforma a manifestação em uma prática estática. Ao contrário, o reconhecimento do patrimônio imaterial considera que a tradição permanece viva justamente porque é recriada por seus detentores. Preservar o cordel significa garantir condições para que os poetas continuem escrevendo, imprimindo, declamando e ensinando.

Do folheto impresso às redes sociais

Durante décadas, o folheto foi o principal suporte de circulação do cordel. A venda em feiras, mercados, praças e portas de eventos aproximava os autores do público e permitia que as histórias se espalhassem de cidade em cidade.

O avanço das tecnologias digitais modificou esse circuito. Hoje, os versos podem ser publicados em redes sociais, blogs, vídeos, podcasts e plataformas de mensagens. A declamação pode alcançar pessoas que não teriam contato com o folheto impresso, enquanto imagens de xilogravura e adaptações audiovisuais ajudam a apresentar a tradição a novos públicos.

A presença digital também amplia as possibilidades de trabalho dos autores, mas não elimina os desafios. A produção de um cordel envolve pesquisa, escrita, revisão, ilustração, impressão e divulgação. Muitos artistas ainda dependem de projetos culturais, feiras, editais e atividades educativas para manter a produção.

No ambiente virtual, a tradição ganha velocidade, mas precisa preservar a autoria e o contexto das obras. A reprodução sem crédito e a circulação de textos atribuídos incorretamente podem prejudicar os poetas e a memória literária. Valorizar o cordel também significa reconhecer quem escreveu, ilustrou e publicou cada trabalho.

Memória cultural que continua em movimento

A força da literatura de cordel no Rio Grande do Norte está na capacidade de unir permanência e mudança. A métrica, a rima, a oralidade e a relação com a cultura popular permanecem como elementos fundamentais. Ao mesmo tempo, os temas, os suportes e os públicos se ampliam.

O cordel potiguar preserva modos de falar, histórias de comunidades e referências que ajudam a compreender a formação cultural do estado. Também oferece uma ferramenta de leitura do presente, ao abordar problemas sociais, acontecimentos políticos e transformações no cotidiano.

Ao chegar às escolas, às universidades, aos eventos culturais e às plataformas digitais, a poesia popular mantém seu caráter coletivo. Ela continua sendo criada para ser lida, ouvida, compartilhada e discutida.

Por isso, a literatura de cordel no Rio Grande do Norte não deve ser compreendida apenas como lembrança de uma tradição antiga. Trata-se de uma expressão cultural ativa, produzida por diferentes gerações e capaz de renovar a própria linguagem. Seus versos seguem contando histórias do povo potiguar e mantendo viva uma das formas mais marcantes de expressão da cultura popular brasileira.

Fontes consultadas

As informações sobre o reconhecimento nacional e as características da manifestação foram baseadas em materiais do Iphan sobre a literatura de cordel, no registro do encontro de salvaguarda realizado no Rio Grande do Norte e em documentos públicos de instituições culturais e educacionais do estado.